quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ser Humano

“Ser mulher na Lituânia é aceitar grandes responsabilidades em momentos muito difíceis”.
Esta frase é de Dalia Grybauskaité, presidente da Lituânia, eleita neste ano com 68% dos votos no primeiro turno e sem partido político. Ela tem apenas 53 anos.
Sem dúvida tiro o chapéu para ela, mas amplio geograficamente sua afirmação. Creio que ser mulher é assumir grandes responsabilidades em qualquer lugar do mundo, com mais ou menos dificuldades.
Esta semana assisti a um filme de animação chamado Persepolis, praticamente a biografia de Marjane Satrapi, uma mulher iraniana que cresceu no período da Revolução Islâmica no Irã. Ser mulher naquele período era assumir não somente responsabilidades tremendas, como riscos incontáveis de aniquilação existencial; não falo de morte, falo de humilhação, desprezo, desrespeito e anulação de si própria. Isto não é privilégio daquele período, nem local, assim ainda o é, em diversos países nos quais a mulher é apenas uma procriadora ou nem mesmo chega a isto.
Aliás, aceitar grandes responsabilidades não é tarefa árdua apenas para as mulheres, mas para homens também. Enfim, tarefa para ser humano. Afinal, se pode chamar de homem uma estapafúrdia criatura que jura ser superior à outra? E o pior, com a justificativa de ser homem? É simplesmente ridículo. A criatura se rebaixar de sua alcançável humanidade para ordenar, através de força física (nada mais primitivo), ao ser que lhe carrega no bucho 9 infinitos meses, dando-lhe a luz por caridade e alívio do peso abdominal, que esta se resuma a uma burca? Isto não é atitude de homem, nem um pouco.
Atitude de gente humana é a coisa mais rara de se ver, no entanto são todos chamados de mulheres e homens.
Difícil é a condição humana. Responsabilidade é ser, é viver. Estamos todos, portanto numa situação complicada, tentando ser humano. Somente com responsabilidade pela vida, é que se pode enxergar como todos os momentos são difíceis, pois são repletos de vida, vidas. A insistência em ignorar este simples fato – o de que estamos vivos a cada momento – e que somente nós somos responsáveis pelo que fazemos com nossos momentos vivos, é que nos faz tão longe da condição de ser homem, ser mulher.
A Dalia Grybauskaité ganhou a presidência num país onde não é necessário estar filiado a um partido para se concorrer às eleições. Tampouco o voto é obrigatório. Fez uma campanha onde gastou 150 mil euros, uma bagatela, se comparada ao orçamento usual de campanhas eleitorais na Europa e ridículo comparado ao gasto de milhões de dólares nos EUA. E ela ganhou sem titubeios (o segundo lugar atingiu 11% dos votos).
A Lituânia vive momentos difíceis: crise financeira fortíssima, recordação ainda fresca da posse soviética, enfim: problemas. Se formos, nós brasileiros, nos compararmos com os ex-países soviéticos ou com os atribulados países do oriente médio, podemos dizer que estamos bem. Muito bem, por sinal. Não há guerra, as mulheres andam mais peladas do que nunca, as maiores brigas são por futebol, a tragédia do tráfico de drogas sempre garante um oscarzinho em Hollywood, temos mais placas de comércio escritas em inglês do que analfabetos. Não há do que reclamar, praticamente. Mas somos obrigados a votar.
Nunca tivemos uma presidente mulher. Homem? Tenho minhas dúvidas. Passou cada criatura por esse cargo que para chamar de homem é de se pensar. A Marina Silva tem aceitado grandes responsabilidades em momentos difíceis. Não há guerra aqui, mas, se esquentar um pouquinho mais, terá guerra no mundo todo. Guerra por um copo d´água, por uma colher de feijão. Assumir grandes responsabilidades é não negar a responsabilidade com suas próprias fezes que desabam na água que se bebe. Permitir que um rio morra, uma nascente seque, florestas se devastem por completo, não é uma atitude humana. Tampouco de uma única criatura.
Marina está assumindo a grande responsabilidade de apontar este fato, visto e sentido por todos, como o nosso momento difícil. Difícil para todos os seres, não somente para os (pretensos) humanos. São rios, florestas, aves, peixes, mamíferos de todas as espécies desaparecendo completamente da face da Terra. Um problema não apenas do Brasil, que o (pretenso) ser humano foi capaz de criar para si e para as demais criaturas do planeta com sua falta de humanidade.
Marina está fazendo a sua parte, tentando ser mulher, apenas isto. E seria maravilhoso que outras criaturas pudessem se esforçar neste sentido, buscando sinceramente ser homem, mulher, humano e assumir responsabilidades em momentos realmente muito difíceis.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Arseni Tarkovski


Só um corpo o homem pode ter.
No seu invólucro, enfraquece a alma,
até estarrecer.
Só tem um par de olhos e de ouvidos;
Outras escapatórias não têm;
A sua pele, de ossos um recipiente.
E voa pela córnea a alma
Para o seu destino celeste,
Para o azul dos céus,
Para o reino dos pássaros.
Através da grade da sua prisão viva
a alma escuta
O barulho dos bosques e dos
campos e os cornetins dos sete mares.
Como é pecado um corpo sem camisa
Também o é a alma sem corpo,
Sem idéia, sem um ato,
Sem uma intenção e sem divisa.
Quem voltará do palco,
Onde ninguém dança?
É um mistério sem solução.
Sonho com uma alma
metida em outras vestes.
Ardendo como álcool,
Da timidez à esperança correndo
Sem ser seguida pela sombra,
Braçadas de lilases, como recordação,
atrás deixando.
Oh, pobre Eurídice,
Não chore.
Pelo mundo corre
com o seu aro de cobre.
Enquanto a Terra ressoa
no ouvido em voz baixinha,
Mas alegre e fresquinha.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Água no pote


Decanta ou encanta?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Somewhere over the pinguela

Logo ali, que avisto com olhos míopes, irei pisar novamente em solos úmidos, outros porém nunca antes sentidos por meus pesitos.
Olho pra baixo não, dá friozinho na barriga, só pro pé, vez em quando, pra mó de não escorregar. Pra cima sim, medir a escureza das nuvens, a clareza do sol.
Paro, por medo ou estratégia, respiro ou esqueço. Continuo caminhando. Equilíbrio é difícil, coragem é mais. Decidir, então, nem me fale, revela a cegueira não o fazer.
Quero é chegar do outro lado. Travessia é boa, aventura, mudança, mas cansa. Até troquei de óculos, mas só olham pra fora. Onde se acham óculos pra dentro? Eu sei, uso deles ao menos duas vezes ao mês, mas ando tão tapada, que ainda não vejo, drento, o tampão onde é que tá.
Vou sentar um pouco, talvez olhar pra baixo um pouquinho, afinal tem igarapé, tem peixinho, tem a água que vai e eu que fico em algum lugar over the pinguela, querendo ser água, sendo terra.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

essa tal...

Então, gente, aproveitando o negócio, olha, vamos tomar cuidado com esse negócio sabe de..., essa coisa de querer lançar ecologia como moda, sabe? Ecologia já faz parte da coisa de cada um, é natureza de cada um, ecologia não é moda. Então vamos acabar com isso, hein. Ecologia é uma parte do nosso corpo, né?, que vem com a inspiração das nossas mentes e da nossa alma, gente. É coisa linda, é a comida da aura.
Hermeto Pascoal

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Pai

Hoje perdi meu pai.
Ele se foi de mim como um rasgo de carne extirpada por arame farpado.
Meu pai idealizado, o herói, o respostas às perguntas que só eu posso responder.
Foi-se. Não olhou para trás. Não viu minhas lágrimas, meu sangue ao chão.
Ainda choro.
Meu pai que nunca existiu além de minha mente pueril, de minha crença ingênua, minha busca infinita.
Vi meu pai no desprezo de um qualquer. Na ausência de um abraço. Na esperança como um caco.
Num homem amedrontado pelos olhos sinceros de uma criança, senti a força do fracasso, a franqueza do medo, o sorriso do desespero. Conheci a orfandia por um pai imaginário, irreal, ilusório.
Desta ilusão bebi, embriaguei-me, tonteei, vomitei. Agora seu cheiro, misturado ao do sangue, causa-me náuseas.
À carne, resta cicatrizar. À ilusão, rogo não voltar.
Meu pai está em mim.
Adentro-me lambendo a ferida, tateando o desconhecido, buscando a força única que em vão tanto exigi daquele que sempre foi e será suficientemente um irmão.
Hoje encontrei a mim.